Testosterona na Menopausa: O Que Realmente Funciona e o Que É Mito

Mãos segurando diversos comprimidos e cápsulas coloridas

Recentemente ouvi de mais de uma amiga que estava pensando em fazer reposição de testosterona na menopausa, comentando que ouviu falar que o hormônio “dá um gás” na disposição, ajuda a emagrecer e até deixa a pele mais firme. Fiquei curiosa, mas também com um pé atrás, porque não é um assunto que a gente vê explicado com clareza em lugar nenhum.

Resolvi pesquisar a fundo pra trazer aqui só o que realmente tem respaldo médico, sem exagero e sem promessa vazia. E o que encontrei surpreende, porque boa parte do que se fala por aí sobre testosterona não é confirmado pelas diretrizes médicas brasileiras.

Neste artigo você vai entender o papel real da testosterona no corpo da mulher, o que muda (e o que não muda) na menopausa, qual é a única indicação reconhecida para reposição, e os riscos reais de usar esse hormônio fora dessa indicação.

Importante: este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica, diagnóstico ou tratamento individualizado.

Mulher madura sorridente e confiante ao ar livre

📌 Resposta direta: A testosterona na menopausa não cai de repente, ela diminui aos poucos desde os 30 anos, independente da menopausa em si. Não existe um valor de exame que defina “testosterona baixa” em mulher saudável, por isso dosar o hormônio pra investigar libido baixa não é indicado. A única indicação reconhecida pelas sociedades médicas brasileiras (FEBRASGO, SBEM e SBC) para repor testosterona é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo depois da menopausa, e só depois de descartar outras causas. Usar testosterona pra emagrecer, ganhar energia ou “regular hormônio” não tem comprovação e pode trazer riscos reais.

O que é a testosterona e qual o papel dela no corpo da mulher

A testosterona costuma ser lembrada como “hormônio masculino”, mas o corpo da mulher também produz esse hormônio, em quantidade bem menor, principalmente nos ovários e nas glândulas adrenais. Ela participa da libido, da disposição física, da massa muscular e óssea, e do bem-estar geral, mas em proporções muito diferentes das do homem.

Mesmo depois da menopausa, quando os ovários param de produzir estrogênio em quantidade relevante, a produção de testosterona não cessa completamente, ela continua acontecendo, em menor escala, também pelas glândulas adrenais. É por isso que os dois hormônios não seguem exatamente o mesmo calendário biológico na mulher.

Testosterona cai de repente na menopausa?

Não. Essa é uma das confusões mais comuns. Diferente do estrogênio, que realmente despenca na menopausa, a testosterona segue uma queda gradual que começa lá pelos 30 anos e continua devagar ao longo da vida adulta, sem relação direta com a menopausa em si.

Ou seja, uma mulher de 45 anos ainda na perimenopausa e uma de 55 já na pós-menopausa podem ter níveis parecidos de testosterona, porque a queda não é um evento, é um processo lento que já estava acontecendo antes.

Existe um nível de testosterona que precisa de tratamento?

Aqui está um ponto que me chamou muita atenção durante a pesquisa: não existe um valor de exame validado que defina “deficiência de testosterona” na mulher. Isso significa que, segundo a nota conjunta da FEBRASGO, SBEM e SBC, dosar testosterona no sangue para investigar libido baixa numa mulher saudável não é uma prática indicada.

A dosagem de testosterona só tem indicação formal para investigar o problema oposto, o excesso do hormônio (hiperandrogenismo), como em casos de síndrome dos ovários policísticos, tumores ovarianos ou adrenais, hiperplasia adrenal congênita e síndrome de Cushing.

Se um exame de rotina mostrar um valor “baixo” de testosterona, isso sozinho não significa que exista um problema a ser tratado.

Qual é a única indicação reconhecida para repor testosterona

Segundo as diretrizes nacionais e internacionais mais atuais, a única indicação clinicamente reconhecida para o uso terapêutico de testosterona em mulheres é o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), especificamente em mulheres na pós-menopausa.

E essa indicação vem com condições importantes: o desconforto com a queda do desejo precisa ser significativo para a mulher, e outras causas possíveis precisam ser descartadas antes, através de uma avaliação completa que considere fatores de relacionamento, psicológicos e efeitos colaterais de outros medicamentos que a mulher esteja usando.

Ou seja, não é indicado começar direto pela testosterona assim que a libido cai. O caminho correto passa primeiro por entender a causa.

O que a testosterona não trata (e o mito mais comum)

Quando comecei a reunir o material pra esse artigo, essa foi a parte que mais me chamou atenção. As sociedades médicas são bem diretas ao afirmar que não há recomendação para usar testosterona para:

  • ganho de massa muscular
  • emagrecimento
  • “rejuvenescimento”
  • melhora de disposição ou energia
  • prevenção de doenças cardiovasculares
  • a chamada “regulação hormonal” geral na menopausa

Esses usos vêm crescendo por conta própria, muitas vezes em clínicas de estética ou por indicação informal, sem respaldo nas diretrizes médicas. E como vamos ver a seguir, usar o hormônio fora da indicação correta não é só “sem efeito”, pode trazer riscos reais.

Quais são os riscos do uso fora da indicação correta

Quando a testosterona é usada fora da única indicação reconhecida, ou em doses acima da faixa fisiológica da mulher, o risco de efeitos adversos aumenta. Entre eles estão:

  • efeitos de virilização, como acne, queda de cabelo, crescimento de pelos, aumento do clitóris e engrossamento da voz (esse último pode ser irreversível)
  • toxicidade e risco de tumores no fígado
  • alterações psicológicas e psiquiátricas
  • infertilidade
  • riscos cardiovasculares, como pressão alta, arritmias, tromboses, infarto e AVC

Isso reforça por que a reposição de testosterona precisa ser sempre acompanhada por um médico, com dose ajustada à faixa fisiológica feminina, nunca por conta própria ou com base em indicação de terceiros.

Usada corretamente, a testosterona é segura?

Dentro da indicação certa e na dose adequada, sim, a segurança é bem diferente. Uma revisão publicada em 2019 na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology, que reuniu 46 estudos com mais de 8 mil mulheres, mostrou que doses fisiológicas do hormônio podem melhorar desejo, excitação, prazer e satisfação sexual, sem aumento significativo de efeitos adversos graves no curto prazo.

Quando a dose é mantida na faixa fisiológica correta, os efeitos colaterais mais comuns costumam ser leves e reversíveis com ajuste de dose, como acne ou crescimento localizado de pelo, bem diferentes dos riscos do uso indevido.

Como é feita a avaliação antes de considerar o tratamento

Antes de qualquer decisão sobre testosterona, o caminho recomendado passa por uma avaliação completa, não só um exame de sangue. O profissional vai considerar histórico de saúde, relacionamento, aspectos emocionais e psicológicos, outros medicamentos em uso, e descartar outras causas da queda de desejo antes de considerar a terapia hormonal como opção.

Esse tipo de avaliação mais ampla também aparece quando o assunto é a queda de libido de forma geral, não só ligada à testosterona. Se você quiser se aprofundar nesse tema mais amplo, o blog tem um texto completo sobre libido depois dos 40 e outro sobre sexo depois dos 40.

Testosterona e outros hormônios da menopausa

A testosterona é só uma parte de um quadro hormonal mais amplo que muda nessa fase. Estrogênio e progesterona têm papéis diferentes e costumam ser o foco principal quando se fala em terapia hormonal na menopausa. Se você quer entender o quadro geral antes de focar só na testosterona, vale a leitura do guia sobre terapia hormonal na menopausa, que explica riscos e benefícios de forma mais ampla, e também o texto sobre menopausa sem tabu.

Quando procurar avaliação médica

Procure um ginecologista ou endocrinologista se a queda do desejo sexual estiver te incomodando de verdade, especialmente depois da menopausa. Não é indicado pedir dosagem de testosterona por conta própria nem buscar reposição sem uma avaliação completa antes.

Pote de cápsulas de suplemento ou medicamento hormonal

Perguntas Frequentes

Testosterona baixa causa falta de libido na mulher?

Não existe comprovação de que “deficiência de testosterona” seja causa reconhecida de baixa libido em mulheres. A queda do desejo sexual tem causas múltiplas, que precisam ser avaliadas individualmente antes de qualquer tratamento hormonal.

Posso pedir exame de testosterona pra saber se estou com nível baixo?

A dosagem de testosterona não tem indicação para investigar valores baixos em mulheres saudáveis, já que não existe um valor de referência validado para isso. O exame tem indicação formal apenas para investigar excesso do hormônio.

Testosterona ajuda a emagrecer na menopausa?

Não há recomendação médica para esse uso. Reposição de testosterona não é indicada para emagrecimento, ganho de energia ou “regulação hormonal” geral.

Reposição de testosterona é segura?

Dentro da única indicação reconhecida (transtorno do desejo sexual hipoativo pós-menopausa) e em dose fisiológica correta, estudos mostram segurança no curto prazo, com efeitos colaterais leves e reversíveis. Fora dessa indicação ou em dose alta, os riscos aumentam bastante.

Qualquer médico pode prescrever testosterona pra mulher?

A prescrição deve vir de avaliação médica individualizada, geralmente por ginecologista ou endocrinologista, depois de descartar outras causas da queda de libido.

Testosterona na menopausa engrossa a voz?

Esse é um risco real do uso fora da dose e indicação corretas (efeito de virilização), e pode ser irreversível. Dentro da dose fisiológica correta, esse risco é raro.

A testosterona muda de repente na menopausa, como o estrogênio?

Não. A testosterona cai aos poucos desde os 30 anos, de forma gradual, diferente da queda mais abrupta do estrogênio na menopausa.

Depois da menopausa, os ovários ainda produzem testosterona?

Em menor escala, sim. A produção de testosterona não depende só dos ovários, as glândulas adrenais também participam, e continuam produzindo o hormônio mesmo depois da menopausa, o que explica por que a queda de testosterona não acompanha exatamente a queda do estrogênio.


Para guardar

Testosterona na menopausa é um assunto cercado de informação exagerada. A ciência confirma um uso específico e seguro dentro de critérios bem definidos, mas não confirma boa parte do que se promete por aí, principalmente ganho de energia, emagrecimento ou “rejuvenescimento”.

Se você está considerando esse caminho, a conversa certa é com um médico que avalie seu caso de verdade, não uma decisão baseada em indicação de amiga ou clínica de estética.


Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa. Ele não substitui consulta médica, diagnóstico, prescrição ou acompanhamento individualizado.


Fontes

As recomendações citadas podem ser atualizadas. Este conteúdo deve ser revisado periodicamente.

Cristina Mello é fundadora e escritora do Mulher Plena 40+, blog criado para mulheres brasileiras acima dos 40 anos que buscam viver com mais saúde, autoestima e propósito.

Apaixonada pelo universo feminino na maturidade, Cristina escreve sobre os temas que mais importam para essa fase da vida: menopausa, bem-estar hormonal, autoconhecimento, beleza madura, finanças pessoais e reinvenção profissional.

Seu compromisso é entregar conteúdo baseado em informação confiável, com linguagem acolhedora e sem rodeios, porque toda mulher merece respostas claras sobre o próprio corpo e a própria vida.

O Mulher Plena 40+ é um espaço de referência para mulheres que recusam envelhecer com medo e escolhem essa fase como o começo de algo muito melhor.

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