O conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou ginecológica. A terapia hormonal deve ser avaliada individualmente por um profissional de saúde.
A terapia hormonal na menopausa é um dos temas mais cercados de medo, mito e desinformação na saúde feminina.
Eu mesma demorei anos para conversar abertamente sobre isso com minha ginecologista.
Tinha aquela sensação de que hormônio era coisa perigosa, que causava câncer, que era melhor evitar.
E fui descobrindo, aos poucos, que o que eu sabia era baseado em um estudo de 2002 que já foi amplamente revisado , e que a medicina evoluiu muito desde então.
Segundo a Dra. Karen de Marca Seidel, diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o risco de câncer de mama é um “fantasma” da terapia hormonal que precisa ser desmistificado.
E o Dr. Rogério Bonassi Machado, presidente da Sociedade Brasileira do Climatério (Sobrac), é categórico: os sintomas do climatério não devem ser menosprezados, pois mexem muito com a qualidade de vida da mulher.
Este artigo é para você que quer entender de verdade, sem medo e sem mito, o que é a terapia hormonal, para quem ela é indicada, quais são os benefícios reais e quais são os riscos reais.
Resposta direta: A terapia hormonal na menopausa repõe estrogênio e progesterona para aliviar sintomas como ondas de calor, insônia e secura vaginal, além de proteger ossos e coração. Segundo a Febrasgo, é segura para a maioria das mulheres quando bem indicada. O risco de câncer de mama existe, é pequeno e depende do tipo de hormônio e do tempo de uso.

O que é a terapia hormonal na menopausa?
A terapia hormonal , também chamada de terapia de reposição hormonal (TRH) ou terapia hormonal da menopausa (THM) , consiste na administração de hormônios para repor o que os ovários deixaram de produzir durante o climatério.
Os hormônios utilizados são principalmente o estrogênio e a progesterona. Em alguns casos, a testosterona também é incluída, especialmente para mulheres com queda de libido e perda de energia.
Segundo a Alta Diagnósticos, a terapia é recomendada principalmente para:
- alívio dos sintomas vasomotores (ondas de calor e suores noturnos)
- tratamento da atrofia urogenital (secura vaginal, dor no sexo, infecções urinárias recorrentes)
- prevenção da osteoporose na pós-menopausa
- proteção cardiovascular quando iniciada no momento certo
A história do medo: por que tanta gente tem receio?
Para entender o medo atual, precisa entender o que aconteceu em 2002.
Um grande estudo americano chamado Women’s Health Initiative (WHI) foi interrompido precocemente ao constatar que o grupo que usava hormônios tinha maior risco de câncer de mama e doenças cardiovasculares.
O resultado foi uma queda de 80% na adesão à terapia hormonal no mundo inteiro, segundo a APM (Associação Paulista de Medicina).
O problema? Esse estudo tinha falhas metodológicas sérias. As participantes eram mais velhas (média de 63 anos), tinham mais de 10 anos de menopausa, e usavam hormônios sintéticos de origem equina , muito diferentes dos hormônios bioidênticos usados hoje.
A medicina evoluiu. Os estudos seguintes mostraram que, quando a terapia é iniciada nos primeiros 10 anos de menopausa , o que especialistas chamam de janela de oportunidade, e com os hormônios certos, o perfil de risco-benefício é muito mais favorável.
Quais são os benefícios reais da terapia hormonal?
Alívio dos sintomas vasomotores
As ondas de calor e os suores noturnos afetam entre 60 e 80% das mulheres na menopausa, segundo a Dra. Adriana de Góes Soligo, ginecologista especializada em menopausa precoce.
Estudos mostram que a terapia hormonal pode reduzir esses sintomas em até 75 a 87%.
Na prática: você dorme melhor, tem mais disposição, e o ciclo vicioso de calor → sono ruim → cansaço → irritabilidade se quebra.
Proteção dos ossos
O estrogênio é fundamental para a manutenção da densidade óssea. Sem ele, a perda de massa óssea se acelera depois da menopausa, aumentando o risco de osteoporose e fraturas. A terapia hormonal é um dos tratamentos mais eficazes para prevenir essa perda , especialmente quando iniciada cedo.
Leia mais: Osteoporose depois dos 40.
Melhora da atrofia urogenital
Secura vaginal, dor durante o sexo, coceira, infecções urinárias recorrentes. Esses sintomas decorrem da queda de estrogênio nas mucosas e pioram progressivamente se não tratados.
A terapia hormonal, inclusive o estrogênio local em baixíssima dose, resolve esse problema de forma eficaz e é considerada segura para a maioria das mulheres, inclusive aquelas que têm restrições ao uso sistêmico.
Leia mais: Secura vaginal na menopausa.
Proteção cardiovascular, quando iniciada no momento certo
Esse é o ponto mais nuançado.
A terapia hormonal iniciada nos primeiros anos da menopausa (janela de oportunidade) ajuda a manter a elasticidade das artérias e pode ter efeito protetor cardiovascular. Iniciada tardiamente, o benefício não se confirma e pode haver riscos.
Segundo a Alta Diagnósticos, o período ideal é os primeiros 10 anos após o início da menopausa, ou antes dos 60 anos de idade.
Melhora do humor, do sono e da qualidade de vida
Irritabilidade, ansiedade, névoa mental, dificuldade de concentração , todos têm base hormonal. Muitas mulheres relatam uma melhora significativa no bem-estar geral depois de iniciar a terapia.
No meu dia a dia conversando com leitoras, o relato mais comum é: “voltei a ser quem eu era.”
Quais são os riscos reais?
Câncer de mama
Esse é o medo número 1. E ele não é completamente infundado , mas precisa de contexto.
Segundo a Dra. Lúcia Helena Simões da Costa Paiva, ginecologista e vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo, mulheres que usam terapia hormonal por tempo prolongado podem ter um pequeno aumento no risco de câncer de mama a longo prazo.
Mas “pequeno aumento” precisa ser dimensionado: o risco absoluto é baixo, varia conforme o tipo de hormônio usado, a via de administração e o tempo de tratamento. E os hormônios bioidênticos modernos têm perfil de risco mais favorável que os sintéticos antigos.
Trombose
Outro risco real, especialmente com a terapia oral. A via transdérmica (gel ou adesivo) tem risco muito menor de trombose do que a oral , e por isso é geralmente preferida por especialistas.
Contraindicações absolutas
Segundo a APM e a Febrasgo, a terapia hormonal não é indicada para mulheres com:
- histórico pessoal de câncer de mama ou de endométrio
- histórico de trombose venosa, embolia pulmonar ou AVC
- doença hepática grave
- sangramento vaginal sem causa identificada
Para quem a terapia hormonal é indicada?
A indicação é feita de forma individualizada pelo ginecologista, com base em:
- intensidade dos sintomas
- histórico familiar e pessoal de doenças
- exames: sangue, mamografia, ultrassom de mamas e transvaginal, densitometria óssea, perfil lipídico
Não existe fórmula única. O que funciona para uma mulher pode não ser indicado para outra.
Tipos de terapia hormonal
Estrogênio isolado
Para mulheres que não têm mais útero (histerectomizadas). O estrogênio alivia os sintomas e protege os ossos.
Terapia combinada (estrogênio + progesterona)
Para mulheres que ainda têm útero. Segundo a Febrasgo, a progesterona protege o endométrio do estímulo excessivo do estrogênio, prevenindo o câncer uterino. Por isso a terapia combinada é obrigatória para quem ainda tem útero.
Vias de administração
- Oral, comprimidos. Prática, mas com maior risco de trombose.
- Transdérmica, gel ou adesivo. Menor risco de trombose, preferida pela maioria dos especialistas.
- Local, creme ou anel vaginal com estrogênio em dose mínima. Indicada especialmente para sintomas urogenitais, com absorção sistêmica mínima.
Testosterona
Pode ser adicionada em casos de queda de libido e falta de energia, sempre em doses individualizadas.
A janela de oportunidade: por que o timing importa
Esse conceito é fundamental e pouco explicado.
Iniciar a terapia nos primeiros 10 anos de menopausa, ou antes dos 60 anos, maximiza os benefícios e minimiza os riscos , especialmente cardiovasculares.
Segundo a Alta Diagnósticos, tratamento tardio pode estar associado a maior risco do que benefício.
Isso não significa que toda mulher precisa começar imediatamente ao entrar na menopausa.
Significa que, se há sintomas e indicação, não faz sentido adiar por medo sem conversar com um especialista.

Como conversar com seu médico sobre isso
Se você quer avaliar a terapia hormonal, vá preparada para a consulta:
- Liste seus sintomas e como eles impactam sua qualidade de vida
- Informe seu histórico familiar (câncer, trombose, doenças cardiovasculares)
- Pergunte especificamente sobre os tipos de hormônios disponíveis e as vias de administração
- Peça para entender os riscos no seu contexto específico , não os riscos genéricos
Se sair da consulta sem uma resposta clara, busque uma segunda opinião com uma ginecologista especializada em climatério.
Resumo rápido
- A terapia hormonal repõe estrogênio e progesterona perdidos na menopausa, aliviando sintomas e protegendo ossos
- O medo do câncer de mama vem de um estudo de 2002 com falhas metodológicas sérias e já revisado pela medicina
- Iniciada nos primeiros 10 anos de menopausa (janela de oportunidade), os benefícios superam os riscos para a maioria
- A via transdérmica (gel ou adesivo) tem menor risco de trombose do que a via oral
- Mulheres com histórico de câncer de mama, trombose ou AVC têm contraindicação absoluta
- A decisão deve ser individualizada com ginecologista especializado em climatério
Perguntas frequentes :
A terapia hormonal causa câncer de mama?
O risco existe, mas é pequeno e depende do tipo de hormônio, da via de administração e do tempo de uso. Os hormônios bioidênticos modernos têm perfil de risco mais favorável que os sintéticos antigos usados nos estudos dos anos 2000. A avaliação deve ser individualizada com seu ginecologista.
Qual é a melhor idade para começar a terapia hormonal?
O período ideal é chamado de “janela de oportunidade” , os primeiros 10 anos após o início da menopausa ou antes dos 60 anos. Iniciada nesse período, a terapia maximiza benefícios e minimiza riscos cardiovasculares.
A terapia hormonal engorda?
Não diretamente. A menopausa em si favorece o acúmulo de gordura abdominal pela queda hormonal. A terapia hormonal não garante emagrecimento, mas pode ajudar a controlar os sintomas que afetam o sono e o humor, que indiretamente impactam o peso.
Quanto tempo posso fazer terapia hormonal?
Não existe um tempo fixo. A decisão de continuar ou interromper é feita periodicamente com o médico, avaliando benefícios e riscos a cada momento. O Ministério da Saúde orienta usar a dose mínima eficaz pelo menor tempo necessário.
Posso fazer terapia hormonal se tenho histórico familiar de câncer de mama?
Histórico familiar é um fator a considerar, mas não é necessariamente uma contraindicação absoluta. Depende do tipo de histórico e do risco individual. Essa decisão precisa ser tomada com um ginecologista especializado, com base em avaliação detalhada.
Existem alternativas não hormonais pra quem não pode fazer terapia hormonal?
Existem. Antidepressivos em baixa dose, fitoterápicos com evidência como o extrato de cohosh preto, mudanças de estilo de vida e, pra sintomas locais, hidratantes vaginais são opções. Nenhuma tem a mesma eficácia global do hormônio, mas ajudam bastante em quem não pode usar terapia hormonal.
A terapia hormonal em adesivo é mais segura que em comprimido?
Em geral sim, principalmente em relação ao risco de trombose. A via transdérmica (adesivo ou gel) evita a passagem pelo fígado que o comprimido oral faz, o que reduz esse risco específico. A escolha da via ideal depende do perfil de cada mulher.
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Fontes
- Febrasgo – consenso brasileiro sobre terapia hormonal na menopausa
- SBEM – Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
Cristina Mello é fundadora e escritora do Mulher Plena 40+, blog criado para mulheres brasileiras acima dos 40 anos que buscam viver com mais saúde, autoestima e propósito.
Apaixonada pelo universo feminino na maturidade, Cristina escreve sobre os temas que mais importam para essa fase da vida: menopausa, bem-estar hormonal, autoconhecimento, beleza madura, finanças pessoais e reinvenção profissional.
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